quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A SAGA DOS ESCRITORES INDEPENDENTES NO MERCADO EDITORIAL BRASILEIRO



                            Agradecendo o convite e a confiança de Milton Pantaleão Júnior, filho do meu dileto amigo Milton Pantaleão, vou compartilhar aqui um pouco da minha experiência como escritora independente de catorze livros solo, além da participação em mais de cinquenta Antologias.
                            Escritores independentes compõem uma nova tendência no mercado editorial brasileiro, saturado de autores estrangeiros e meia dúzia de nacionais – sempre os mesmos – que vendem bastante porque as grandes editoras investem neles. Investem na distribuição de suas obras, ou conseguem incentivos e parcerias com órgãos públicos e/ou privados.
                           Inclusive nos grandes concursos, que trazem visibilidade, prêmios e publicações, os vencedores acabam sendo quase sempre os mesmos, já conhecidos do público. Não há investimento ou oportunidades para novos escritores.
                          As grandes editoras alegam que os escritores independentes fazem uma tiragem pequena, porque sai caro, e isso dificulta a distribuição em larga escala. Sendo assim, o escritor tem dificuldade de fazer seu livro chegar ao leitor.  Além disso, o preço unitário de livros produzidos em menor quantidade não é competitivo com os balaios de livros oferecidos nas Feiras, com preços reduzidíssimos, porque mal traduzidos e impressos aos milhares. Esses livros, mesmo vendidos a cinco ou dez reais apenas, ainda trazem lucro para as editoras.
                         A distribuição é crucial! Algumas livrarias até aceitam comercializar seus livros, mas eles ficam escondidos, colocados  de lombada nas prateleiras, nunca são expostos com destaque e os leitores raramente chegam a vê-los.
                         No Brasil, já foi comprovado por pesquisas sérias que 44% da população não lê e 30% nunca comprou um livro! E que as mulheres leem mais do que os homens.
                        Os meios digitais auxiliam a exposição dos novos autores e muitos livros são oferecidos e comercializados nas redes sociais. Nesse caso, o escritor deve acrescentar às suas funções a de empacotador e distribuidor, enfrentando filas nos Correios, pagando taxas para que seus livros cheguem a quem se interessou por eles.  Depois, o retorno, quase sempre muito positivo, comprova que sua obra poderia ser apreciada por uma camada bem maior da população, caso o mercado editorial não fosse fechado e injusto como é.
                         A falta de ousadia do mercado editorial tradicional e das mega livrarias são responsáveis pela atual crise e falência do ramo. O público quer novidades!
                         Feiras do Livro e, sobretudo, Feiras Independentes são importantes vitrines para os novos autores. Não há como classificar um autor sem que ele chegue a ser testado pelo público leitor. Só assim ele poderá ser julgado e a função do mercado editorial deveria ser a de intermediar esse contato.
                           Um escritor 100% independente escreve, revisa, edita, paga e distribui seu livro. Eu não me considero totalmente independente, porque publico através da Editora Alternativa, numa parceria que tem dado muito certo. Pago as edições e as ilustrações dos livros infantis do meu bolso e cabe também a mim vender os livros para tentar reaver pelo menos parte do investimento, possibilitando novas edições e novos livros.
                          Depois de meses trabalhando num livro, às vezes anos, conseguimos mandá-lo para edição, juntamos as economias para fazer o pagamento e recebemos caixas cheias de livros ocupando bastante espaço na casa. Olhamos para elas e pensamos: - E agora?
                           Mesmo sabendo que nossos livros são bons, que o trabalho foi bem feito temos que ficar oferecendo e insistindo nas redes sociais para que os leitores cheguem a conhecer e possam desfrutar de algo que sabemos que tem qualidade.
                          Não é fácil vender livros no Brasil!
                          Para muitas pessoas, dinheiro gasto em livros é dinheiro “jogado fora”. Alguns compram para agradar o autor e não leem. Nesse caso, melhor ler emprestado do que comprar e não ler. Outros, não apreciam receber presentes de livros e dão qualquer quinquilharia para as crianças, que logo serão deixadas de lado, ao invés de procurar incentivar a leitura desde cedo, com presentes bem mais duradouros e enriquecedores.
                           Meia dúzia de escritores nesse país consegue sobreviver da sua escritura. A grande maioria escreve porque gosta, porque precisa, porque se expressa melhor por escrito. Mas faz isso nas horas vagas, sabendo que não terá retorno financeiro, ao contrário, seu saldo bancário diminuirá a cada livro publicado.
                           Sem um centavo de lucro, por exemplo, consigo vender meus livros infantis a R$ 15,00. Compare com um daqueles de R$ 5,00 nas Feiras. Grandes, coloridos, bem ilustrados, mas sem enredo algum. Conte as histórias de ambos para as crianças e ouça a opinião delas.
                           Quem escolhe e distribui – em larga escala – livros para as escolas raramente dá esta oportunidade a um novo autor brasileiro. Serão sempre os mesmos nacionais, ou os tantos traduzidos. A criança é conquistada pela capa, pelo tamanho do livro e das ilustrações e seus genitores e professores pelo preço. Só.
                          Hoje, o poder das grandes editoras está sendo questionado e o leitor não quer mais ler apenas o que elas decidirem que é bom, ou que deve ser lido.
                          O autor, através das mídias digitais, está conseguindo chegar ao leitor e o retorno tem sido muito positivo.
                         Existem leitores para os BONS LIVROS de escritores independentes! No entanto, há que ter capricho, cuidado e revisão nesses livros, não deixando que a ansiedade de publicar diminua a qualidade do produto final.
                         É mais fácil o autor ter uma boa relação com uma editora pequena do que com uma grande, para quem os novos autores não são nada, porque não têm retorno garantido.
                           Resumindo, os escritores independentes podem ser comparados a feiras de produtos orgânicos, aos trabalhos artesanais, aos pequenos produtores. E Feiras do Livro independentes são vitrines adequadas para a aproximação do escritor com o leitor.
                           “Quem não é visto, não é lembrado.”
                            Se as livrarias grandes, médias e pequenas proporcionassem um espaço adequado às obras dos escritores independentes.
                            Se  as escolas privilegiassem os livros dos autores nacionais ainda pouco divulgados nas suas aulas e bibliotecas.
                            Se em todos os bairros houvesse livrarias próximas às casas das pessoas.
                             Se os shoppings centers, supermercados, cafeterias, lojas de conveniência, aeroportos, rodoviárias concordassem em expor livros de autores brasileiros menos conhecidos.
                             Certamente os escritores independentes poderiam fazer chegar aos lares brasileiros uma literatura nova, arejada, com as cores da nossa cultura, com o sabor do nosso povo, com as belezas do nosso país.
                            Não desanimemos, portanto! Com trabalho e perseverança vamos alargando esse mercado editorial e conquistando nosso lugar nele.
                           Fé e força escritores!





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